AMIGOS PERDIDOS
Numa noite destas, tive um sonho muito ruim, aliás, um pesadelo. Sonhei que andava perdido por uma cidade muito estranha. A cada passo que dava eu encontrava com um velho amigo. Porem, quando ia falar com aquele amigo, ele não me reconhecia. Eu tentava explicar quem era eu, falava dos nossos agradáveis encontros, dos nossos preciosos momentos juntos, mas nada adiantava. No meio daqueles muitos amigos que perambulavam pelas ruas da estranha cidade e não mais me reconheciam, havia uma em especial, uma que, entre todos, havia sido mais querida por mim. Eu sentia uma necessidade enorme que ela se lembrasse de mim, mas de nada adiantava o meu esforço em fazê-la se lembrar. Às vezes ela quase se lembrava, olhava atentamente para meu rosto e dava um leve sinal de que iria reconhecer-me, mas acabava por dizer que não sabia quem eu era.
Repentinamente, acordei muito assustado e permaneci acordado na cama por um longo tempo noite a fora, a refletir sobre aquele estranho sonho. A minha mente foi revivendo momentos muito importantes do passado da minha vida, que vivi com grandes amigos. De repente me dei conta de que aqueles meus amigos não me pertenciam mais. Eram amigos que na realidade, hoje faziam parte do meu passado. Amigos que eu deixei passar por minha vida. Comecei a me sentir culpado por não tê-los mais perto de mim. Esta culpa me fez sentir que eu deveria ter cuidado melhor deles, deveria tê-los valorizado mais e não ter deixado que o tempo os levasse embora, os levasse para tão distante de mim, os apagasse do meu cotidiano.
Neste meu momento de reflexão, lembrei que aquela amiga especial que tanto insisti para que me reconhecesse, chamava-se Berenice. A imagem dela firmou-se mais em minha mente. Berenice havia sido muito importante em vários momentos delicados de minha vida. Fazia muitos anos que não via e que também não ouvia mais falar em Berenice. Ela era uma pessoa muito elegante, sofisticada, bonita e ao mesmo tempo sensível. Possuía uma loja de coisas da Índia, que ficava do lado do meu trabalho. A nossa amizade começou do nada, do momento em que entrei em sua loja acompanhando uma amiga que queria comprar incensos. A partir daquele dia nos tornamos amigos muito próximos. Dia a dia visitando Berenice para um bate-papo descobri que ela era uma pessoa depressiva, aliás, ela me dizia ser depressiva. Mas por incrível que pareça eu não conseguia vê-la assim, ao contrário, eu a via como uma pessoa dinâmica, alto astral, especial.
Muitas vezes por dia Berenice me ligava e me convidava para um café com biscoitos mineiros em sua loja e nestes momentos ela se desabafava comigo. Falava dos seus amores perdidos, das suas angustias, amarguras e medos. Se eu achava que estava ajudando Berenice por ouvi-la, engano meu, pois ela quem me fazia bem. Ouvi-la era tão agradável para mim que o tempo ia passando e eu nem percebia que estava em horário de trabalho. Através daqueles encontros a nossa amizade foi consolidando-se, até que nos tornamos tão próximos que dormíamos um na casa do outro. Cuidávamos um do cachorro do outro. Passávamos noites batendo bons papos. Esta amizade durou por longos anos, até que um dia me mudei de cidade e nunca mais me encontrei com Berenice. No dia da despedida, pelo telefone, ela me desejou boa sorte e desligou.
Hoje, analisando o meu passado, acho que deveria ter cuidado melhor dos amigos. Acho que não dediquei a eles o tempo necessário, não dei a eles o carinho que precisavam, principalmente a Berenice. Vejo que o sonho, aliás, o pesadelo que tive, foi um alerta para que eu fique mais atento para o que é amizade. Hoje sei que amigo é a coisa mais importante da vida, é a base de tudo que é bom. É como se fossemos um tronco e os galhos fossem os amigos. Não existe uma arvore sem galhos e não existe um homem sem amigos. Todos sabemos que um verdadeiro amigo tem que estar sempre ao lado nos momentos bons e ruins, mas nem sempre arcamos com esta filosofia. Me recordo hoje que quando mudei de cidade e me sentia só, todos os dias quando ia dormir pedia a Deus por um amigo. Mas não lembrava que havia me mudado de cidade sem ao menos perguntar à Berenice se ela gostaria que eu me mudasse.

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