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Noites atrás sonhei que, o filho, um homem na faixa dos quarenta anos, chegou cansado em casa após um longo e árduo dia de trabalho e encontrou sua mãe sentada numa velha poltrona num canto da sala a pensar. Por instantes ele logo ficou assustado, pois uma coisa rara era ver a mãe descansando. A senhora era uma mulher lutadora, que, embora durante toda a sua vida desempenhara somente o papel de dona de casa a cuidar dos muitos filhos, o seu tempo de descanso se designava somente à hora de dormir, o que ocorria sempre por volta das dez horas da noite.
Assustado, o filho foi até a sua mãe, sentou-se frente a ela e perguntou se estava tudo bem. A senhora, ao direcionar o penetrante olhar aos olhos do filho, confessou estar com medo de que a morte chegasse antes de seu sonho se realizar. O filho notou que algo de fato havia acontecido, pois raramente a mãe falava de si. Agora cabisbaixa, a mãe soltava leves e brandas palavras, às vezes cessadas por suspiros, que representavam o seu sonho. Ela confessou que faziam quarenta anos de casada com o seu marido, alertou que foram os mais felizes da vida dela, mas uma coisa a incomodou durante todo este tempo. Sabia ela que a sua importância como mãe e dona de casa era fundamental e necessária, principalmente para cuidar de onze filhos que o casal teve, mas muitas vezes ela sentia que talvez estivesse fazendo pouco para ajudar o marido. Vê-lo saindo todos os dias às cinco horas da manhã para conseguir dinheiro no trabalho árduo e voltar somente ao por do sol, a deixava com uma sensação de incapacidade. Confessou ela ainda, ter vontade de poder ajudar mais o marido, talvez se fizesse algo que trouxesse dinheiro para casa, para assim juntar à pequena renda do moço.
O filho, ainda sentado, ouvia atentamente a pobre mãe falar e lutar contra as lágrimas que ameaçavam cair-lhe pela face. Em um momento de pausa entre uma palavra e outra, o filho aproveitou a oportunidade e a questionou sobre qual era, de fato, o seu sonho. Como um escritor que desenvolve uma cuidadosa história, a mãe disse que, como boa cozinheira que era, ela gostaria de poder fazer algo com suas próprias mãos. Frisou que, dentre os muitos pratos que fazia com regrados mantimentos, era apaixonada em especial pelo milho verde, sabia prepará-lo com maestria. Relatou que durante todos aqueles anos vinha juntando o pequeno troco que sobrara do dinheiro que o marido dava para as compras semanais, e já era um hábito seu, de tempos em tempos, contar as moedas para ter conhecimento do valor que possuía.
O filho pediu-a para ser mais objetiva, explicar o que ela pretendia fazer com o dinheiro. Ela confessou que gostaria de poder comprar um carrinho para, após acabar as tarefas diárias de casa, poder vender o seu prato preferido na praça pública da cidade, e assim poder contribuir com o alívio do pobre marido, mas como o tempo estava sendo mais ágil que a sua economia, ela estava tendo a sensação de que não iria conseguir realizar o seu tão desejado sonho. Filho e mãe se abraçaram e as lágrimas caíram como uma cachoeira, de ambos!
Vivemos numa era de tanta globalização que os nossos sonhos tem por obrigação serem grandes, senão seremos esmagados pela maçante cobrança social. Isto nos faz esquecer que existem pessoas que tem sonhos bem menores que os nossos, mas que não deixam também de serem difíceis de ser conquistados.


